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Negócios de impacto social criam oportunidades no RN – Tribuna do Norte

Bruno Vital 14h50

Laura teve a casa reformada pelo ReforAmar – Foto: Magnus Nascimento/TN

Bruno Vital
Repórter

O barulho que atravessa o corredor de casa está longe de incomodar a artesã Laura Silva, de 38 anos. A responsável é a filha, Itiele Ágata, 10, que hoje, mesmo com um diagnóstico de paralisia cerebral, tem autonomia para percorrer espaços com a ajuda de um andador. A cena, hoje comum, parecia impossível há cerca de três anos. Na época, Laura, o marido Ion Seixas e os filhos Itiele e Ian, 14, viviam em uma casa pequena e insalubre no Jardim Lola, São Gonçalo do Amarante.

O espaço apertado dificultava a locomoção e acabava limitando o desenvolvimento motor de Itiele, que muitas vezes precisava se arrastar pelos cômodos, além de limitar o próprio funcionamento do negócio de Laura, um ateliê de produção de acessórios e laços infantis. A antiga casa havia sido cedida pelo sogro de Laura logo após o casamento, em 2010.

“Era ruim para Itiele andar. Ela se arrastava muito pela casa e isso acabava atrasando ainda mais a coordenação motora dela”, lembra Laura. “Meu espaço de produção também era muito pequeno. Como trabalho online, muitas vezes deixava de gravar vídeos ou tirar fotos porque não tinha um ambiente adequado, não era um local legal”, completa.

Itiele agora tem mais espaço para caminhar pela casa – Foto: ReforAmar/Divulgação

A mudança começou depois que a família recebeu a doação de uma casa na mesma rua. O imóvel, porém, estava abandonado e sem condições de uso. Sem recursos para reformar o espaço, Laura passou a mostrar a situação nas redes sociais do próprio ateliê. Foi através de comentários e marcações feitas por seguidores que ela conheceu a ONG ReforAmar.

Após a inscrição feita pela irmã, a família foi selecionada para receber a reforma social pelo projeto. Hoje, a realidade é diferente. A casa, que fica na mesma rua da antiga, possui espaços mais amplos, acessibilidade para Itiele e um ambiente adequado para o crescimento do empreendimento da artesã. No fim de 2023, a família se mudou para a casa nova, repaginada pela ReforAmar.

“Até hoje, a minha primeira lembrança foi ver minha pequena correndo com o andador dela dentro da casa. Isso ficou muito marcado na minha mente”, conta Laura. “Senti que virou uma chave na minha vida. Uma casa apertada afeta muito a autoestima, me deixava desanimada, não tinha vontade de arrumar a casa, muitas coisas que gostaria de fazer deixava para lá”, diz.

Além da mudança de endereço, Laura afirma que passou a ter acesso às consultorias e conexões que ajudaram a fortalecer também o próprio negócio. “Conheci mulheres que me ajudaram na rede social do ateliê, ganhei consultorias de marketing, fotografia, contabilidade e imagem. O ReforAmar não reformou só minha casa, trouxe conexões maravilhosas para minha vida”, diz.

Laura montou um ateliê em casa para produção de acessórios e laços infantis – Foto: Magnus Nascimento/TN

Transformação de dentro para fora de casa

A transformação da casa da família de Laura faz parte do trabalho desenvolvido pela engenheira civil Fernanda Silmara fundadora da ONG ReforAmar. A identificação com histórias como a de Laura não é coincidência. O alicerce para a construção da ReforAmar surgiu a partir da própria experiência de vida de Fernanda Silmara, que também cresceu em uma moradia marcada por infiltrações, goteiras e problemas elétricos.

“Depois que consegui reformar minha própria casa junto com meu tio, percebi que uma reforma não mudava apenas paredes, mas autoestima, dignidade e perspectiva de vida”, lembra. A experiência pessoal acabou mudando também a forma como ela passou a enxergar a própria engenharia. “Eu não entrei na engenharia olhando apenas para prédios ou estruturas. Entrei olhando para pessoas”, afirma.

Fernanda participa do processo de reforma das casas – Foto: ReforAmar/Divulgação

Criada oficialmente em 2018, a ReforAmar atua na reforma de moradias em situação de vulnerabilidade social, além de desenvolver ações voltadas à capacitação profissional e economia circular através de um bazar solidário. Hoje, segundo Fernanda, aproximadamente 300 famílias aguardam atendimento da ONG.

Para Fernanda, a vulnerabilidade habitacional vai muito além da estrutura física das casas. Segundo ela, a falta de condições básicas no lar afeta diretamente a autoestima, a saúde mental e até a perspectiva de futuro das famílias atendidas pela ONG. “Uma pessoa que vive com medo da chuva, de choque elétrico ou dormindo no chão não está apenas sem conforto. Ela está tendo direitos básicos negados”, afirma.

O crescimento da ONG também trouxe novos desafios. Além dos altos custos das reformas, Fernanda afirma que a demanda aumentou significativamente nos últimos anos, impulsionada principalmente pela visibilidade das histórias compartilhadas nas redes sociais. “As pessoas abraçam porque percebem o impacto real. Quando um voluntário entra numa casa precária e depois vê aquela família emocionada usando um banheiro digno pela primeira vez, isso transforma também quem ajuda”, diz.

Hoje, além das reformas habitacionais, a ReforAmar também desenvolve ações voltadas à capacitação profissional e geração de renda para famílias em situação de vulnerabilidade. Para Fernanda, o empreendedorismo social se tornou uma ferramenta capaz de unir sustentabilidade financeira e transformação coletiva. “A gente usa ferramentas de empreendedorismo para transformar vidas”, comenta.

Renda, autonomia e recomeço

Em diferentes regiões do Estado, projetos ligados ao empreendedorismo social têm buscado transformar também outras dimensões da vulnerabilidade, como geração de renda, inclusão e autonomia financeira. No cruzamento entre as avenidas Salgado Filho e Amintas Barros, em Natal, a venezuelana Maritza Maria passa parte dos dias oferecendo pães aos motoristas que param no semáforo.

Aos 21 anos, mãe solo e vivendo no Brasil há três anos, ela encontrou no projeto O Pão Nosso de Cada Dia a primeira oportunidade de geração de renda desde que chegou ao Rio Grande do Norte. “Eu procurava trabalho e não conseguia. Quando cheguei em Natal apareceu essa oportunidade”, conta Maritza. “O dinheiro ajuda na comida, na roupa e nas coisas do meu filho”.

Ação promove a venda de pães artesanais no semáforo – Foto: Magnus Nascimento/TN

Maritza vive atualmente com outros familiares em uma casa alugada na capital potiguar. Antes do projeto, a renda da família vinha basicamente de auxílios sociais aos refugiados. Com a venda dos pães, segundo a organização, os ganhos praticamente dobraram no primeiro mês de funcionamento da iniciativa.

O projeto foi criado pela arquiteta Larissa Giffoni após anos convivendo com a realidade de pessoas pedindo ajuda nos sinais de trânsito da cidade. A ideia ganhou forma depois de uma palestra sobre empreendedorismo social no Sebrae-RN. “Eu sabia que queria criar uma oportunidade e não apenas entregar dinheiro”, afirma Larissa. “O projeto nasceu com um intuito muito claro: ensinar a pescar e não dar o peixe”, frisa.

Inicialmente, a proposta buscava envolver pessoas que já atuavam nos semáforos vendendo produtos ou pedindo ajuda. As primeiras tentativas, porém, não tiveram adesão suficiente. O cenário mudou após a aproximação com projetos sociais que atendem imigrantes venezuelanos em Natal. Hoje, quatro integrantes da mesma família participam da iniciativa: Maritza, os irmãos Silvia e José, além de Alexia, esposa de José.

Além da geração de renda, o projeto também promove capacitações ligadas à abordagem, vendas e desenvolvimento pessoal. Segundo Larissa, a ideia é transformar a iniciativa em uma empresa capaz de ampliar o impacto social e gerar oportunidades para mais famílias. “Precisamos enxergar o empreendedorismo social como uma possibilidade real de transformação”, afirma. “Conseguimos gerar receita e ao mesmo tempo mudar a vida das pessoas”.

Maritza é venezuelana e encontrou no projeto uma forma ganhar renda – Foto: Magnus Nascimento/TN

Apesar do crescimento do projeto, os desafios continuam. A barreira do idioma e a timidez ainda dificultam a abordagem dos motoristas pelos vendedores venezuelanos. Mesmo assim, Larissa afirma que a aceitação do público tem sido positiva. “No primeiro dia levamos 100 pães para o sinal e vendemos tudo em uma hora e meia. Muitas pessoas talvez não comprem, mas, pelo menos, param para ouvir e entender o que estamos fazendo”.

Empreendedorismo social ganha espaço no RN

As iniciativas fazem parte de um cenário de crescimento dos chamados negócios de impacto social no Rio Grande do Norte. Segundo Mona Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto do Sebrae-RN, o Estado desenvolve programas voltados ao fortalecimento desse ecossistema desde 2017.

“Os negócios de impacto possuem algumas características básicas: geram lucro, resolvem problemas sociais ou ambientais, monitoram impacto e possuem intencionalidade”, explica. Segundo ela, os programas do Sebrae-RN já aceleraram 400 empresas ao longo dos últimos nove anos em áreas como saúde, educação, agricultura, moda, tecnologia, turismo e economia circular.

Mona destaca ainda que o RN foi o primeiro estado brasileiro a criar uma política pública voltada para economia de impacto, negócios verdes e sustentáveis. “O empreendedorismo social é uma mola propulsora para o desenvolvimento sustentável. Esses modelos mudam territórios, fortalecem comunidades e ajudam a resolver problemas sociais de forma estruturada”, afirma.

De acordo com Nóbrega, os negócios de impacto possuem características que os diferenciam dos modelos tradicionais de mercado. “Eles geram lucro, mas também têm a intencionalidade de resolver problemas sociais ou ambientais e monitorar esse impacto”, diz. Iniciativas como a ReforAmar e o Pão Nosso de Cada Dia mostram como o empreendedorismo pode atuar diretamente na transformação das pessoas. “A capacidade empreendedora e inovadora pode estar a serviço das pessoas e do meio ambiente”, diz.

Mona Paula Nóbrega, do Sebrae-RN, diz que o RN fortalece o ecossistema de negócios de impacto social desde 2017 – Foto: Alex Régis/TN

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